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Ninguém pôde ver

Tudo começou numa inocente brincadeira.


Ela costumava levar suas bonecas para a garagem da casa pois, sempre vazia, a permitia - na imaginação - ter seu próprio lar. Onde inclusive recebia visitas! E não de fantasia! Pois o portão vazado concedia aos vizinhos envolvimento, que sempre gentis, admiravam a menina brincar.


E ela o fazia de forma tão gostosa, que aos poucos, atraindo pessoas que buscavam preencher o vazio de seus próprios cômodos, foi ganhando público fiel. A tal ponto que nos fins de semana, era comum encontrar cadeiras colocadas na frente da casa, à espera da menina acordar.


Ela não decepcionava. Brincava com todo o coração, arrancando risos, suspiros e até aplausos daqueles que escolheram vestirem-se de testemunhas para participar.


De forma a honrar o que já era compromisso, ela foi trazendo os móveis de seu quarto para a garagem, otimizando o tempo de ser vista, passando cada vez mais horas escolhendo existir de maneira a agradar. E para não faltar aos insones, passou a estender-se noite adentro em brincadeiras de pijama, e mesmo quando dormia não havia um só momento em que não houvesse sobre ela um olhar.


Até que em um certo momento, a menina começou a passar mal. Algo dentro dela, ignorado por não ser visível, entrando em erupção, acumulado, reivindicou o direito de aparecer:


- Alguém me ajuda! - ela gritou.


Mas aqueles que a assistiam não tinham mais do que seus olhos para oferecer. A Lua minguando foi quem lhe auxiliou:


- É preciso haver espaço para lidar com as partes da gente que só existem para ninguém ver.


A Lua fechou as cortinas e as pessoas retornaram às suas casas para assistir outras vidas através de uma tela qualquer.


Exausta, a menina dormiu, e o que sonhou, ninguém pôde ver.

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