Cobertos de razão

De vez em quando, ao estudar as profundezas do universo através de softwares, fórmulas e teorias eu me sinto um pouco distante, como se, pelo espaço afora, tivesse perdido a ligação com algo essencial. Nesses dias, como solução, caminho para o lado contrário e viajo no tempo sentando-me, milênios atrás, ao lado dos nossos ancestrais.


São mulheres e homens observadores do céu, um povo encantado, origem de todos nós, que facilmente se camuflam nas noites escuras e fazem desenhos nas estrelas, criando constelações. Com eles, escuto atenta sobre deusas e deuses, monstros e heróis e me sinto novamente em casa, preenchida pela magia dos mitos e com os pés enterrados na areia que, de forma quase infinita, se espalha pelo chão.


Nessas ocasiões, conscientes dos tempos de onde vim, eles me pedem para que eu conte as novidades que um dia hão de chegar. Eu, falo sobre foguetes, telescópios, galáxias distantes, buraco negro e planetas que giram em torno de outros sóis.


Eles, respeitosos, escutam com consideração, não se espantam e nem duvidam, pois, descrença é invenção moderna e eles sabem do que nossa espécie é capaz. Mas mesmo assim, não deixam de perguntar:


- E qual é a sua história preferida sobre esses novos deuses que vocês conseguem enxergar?


Minha resposta é um suspiro. Eu explico que nós, pessoas da atualidade, já não temos o costume de criar narrativas celestiais, pois, diferente deles, não estamos cobertos pelo céu, mas sim, de razão.


Com generosidade eles acenam a cabeça e dizem que está tudo bem, recomendam que eu avance de mãos dadas com meu próprio tempo, mas carinhosamente me convidam a visitá-los sempre que eu precisar de personagens que me inspirem a viver.


Depois disso, volto para o momento presente cada vez mais certa de que, observar as estrelas para, além de saber do que são feitas, preencher de sentido e histórias as nossas vidas, é algo que eu devo continuar a fazer.

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