Deus está nu

Uma saudade conduz a escrita desse texto, saudade de coisas que eu nunca vivi, mas que minhas células guardam em memória milenar. Essa memória, dizem elas, é a única forma que você tem de sobreviver.


Elas me falam de um tempo onde não precisávamos de Deus, afinal, entre infinitas mesclas de cores, sabores e texturas dávamos um jeito de criar a vida através de nossas próprias mãos. Minha células relembram uma época onde não nos iludíamos com ideias de progresso e nem esperávamos promessas do amanhã, pois o tempo era marcado em cada uma de nossas ações e como todas elas tinham conexão, costuravam o dia na noite, as estrelas no canto dos pássaros, sem dar brechas para a ansiedade, sem criar necessidade de estarmos fora do momento presente pois tudo o que precisávamos, estava diante de nós.


Elas me explicam que, quando nos fizeram acreditar em um Deus externo, que vive em um reino distante, prometendo imortalidade, desvinculado da terra e daquilo que está vivo, nos distraímos a tal ponto tentando encontrá-lo em objetos inanimados que não tivemos condições de entender que ele sempre esteve dentro de nós. Por sermos, diferente do que nos contaram sobre ele, passageiros, vivos e mortais, terminamos acreditando na posição que nos deram, inferior.


Deixamos de saber o que fazer da vida quando desacreditamos que o sentido dela, era fazê-la acontecer e abandonamos os recursos verdadeiramente divinos em mãos que prometeram nos alimentar, enquanto tentávamos evoluir uma evolução que já nos pertencia, para sermos merecedores de um paraíso que nunca chegou.


Desde então, assaltados e perdidos, temos desconfiado que nossas emoções não se descontrolaram à toa e que nosso choro foi reprimido para que não denunciasse que esse Deus, assim como o Rei daquela história que desfila sem roupas por ter sido enganado por um alfaiate aproveitador, está nu, e suas vestes são uma falsa invenção.