A menina espelho

Recomendação de leitura: o intuito desse texto é movimentar lugares não óbvios, incomuns dentro de nós, por isso, depois de ler feche os olhos, faça silêncio e preste atenção nas sensações que ele provoca em você. Se quiser, descreva-as nos comentários.


Era uma vez uma menina que, segundo os olhos dos demais, havia nascido com um defeito. Algo em sua maneira de ser, cabelo, dedão do pé, desagradava e isso, pelo jeito, era suficiente justificativa - já que ela não era como o esperado – para que o outros se sentissem no direito de maltratá-la.


Porém, como a natureza tem seus mistérios a favor da vida, coisas que ninguém consegue entender, mesmo cercada de impossibilidades, cheia de razões opostas ao existir, a menina, fazendo tijolo e cimento das palavras ruins e dos malquereres dirigidos a ela, cresceu, e eles eram tantos, que ela ficou grande demais.


E sem querer querendo, ao se movimentar com aquele preenchimento duvidoso, começou a destruir os muros e telhados ao seu redor. As pessoas rapidamente chamaram-na de monstro, de cruel, e com razão, pois ela agora além de tudo, passava por cima daquilo e daqueles que encontrava pelo caminho.


Não demorou muito para que a situação ficasse insustentável a tal ponto que, para não morrer, ela teve que fugir, causando imenso alívio e felicidade àqueles que já não mais suportavam a presença incomoda que ela trouxe ao nascer.