A tartaruga do apocalipse

Algumas vezes minha tartaruga some, outras vezes, com o casco aberto, morre. As variáveis são essas, mas desde março desse ano não teve uma semana em que eu não tenha sonhado com ela.


Porém, essa noite a narrativa foi diferente, ela se distanciou do lago onde vive e saiu andando, como eu estava perto, resolvi segui-la. Ela entrou em um corredor sujo, estreito, de chão de cimento com esgoto passando dos lados, me preocupei, mas decidi não importunar, afinal, ela parecia saber onde estava indo.


No fim do corredor chegamos a uma cidade deserta onde os prédios estavam vazios e os carros, abandonados nas ruas, esperavam por ninguém. Minha tartaruga seguiu em linha reta pelo apocalíptico cenário e eu fui atrás.


Ela então atravessou uma grande avenida, subiu por uma rua, também deserta, e entrou em um prédio - eu sempre atrás. Ela parou diante de uma escada sem condições de subir, foi então que eu escutei acima de nós um gemido baixo que me fez estremecer.


Peguei minha tartaruga nos braços, e subi.


No primeiro andar, a porta de um dos apartamentos estava aberta, morrendo de medo, eu entrei. O barulho continuava e me conduziu a uma pequena cozinha, quando cheguei até ela, meu coração disparou! No chão, de costas, encolhida em um canto estava uma pessoa miserável, esquelética, com roupas que mais pareciam pano de chão. Fiquei com medo de que ela virasse por não saber o que teria que encarar, mas ao mesmo tempo algo me atraiu, toquei em seus ombros, ela virou, eu quase desmaiei.


A pessoa miserável era eu.


Minha tartaruga, símbolo pessoal de resistência e da passagem do tempo, tinha ido me buscar para me fazer sobreviver. Encarei a mim mesma e perguntei:


- Como posso me ajudar?


Ela abriu o sorriso que todos os dias eu vejo no espelho e me fazendo arrepiar respondeu:


- Dizem que depois do fim da humanidade a natureza vai crescer e reconquistar espaços. O tempo da humanidade como você conheceu já acabou, e a natureza que precisa reconquistar os espaços, somos nós.


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