O ontem, a velha e a lua

O ontem, velha carregadora de sementes, enrugada e de olhar distante de quem não pertence a lugar nenhum, vem a passos lentos, como água de mar invadindo pouco a pouco o terreno que a gente secou.


A velha-ontem puxa, sem medo, a cadeira que sustenta a importância que a gente se dá, fazendo-nos cair no chão, para poder sentar. Olhamos para ela contrariados, porém, mais antiga que a raiva ignorante que nos permitimos sentir, ela nos vê como crianças que ainda tem muito por aprender.


Lenta e despreocupada, ela procura algo em sua cumprida sacola, deixando-nos irritados pela demora inerente ao ato de encontrar uma solução. Ela sorri.


A velha-ontem abre um livro e estende em nossa direção. Um vento frio faz da nossa espinha escada para poder subir. Na página amarelada está do desenho do rosto de cada um de nós:


- Esse é o livro da vida, ela diz. Como um quebra-cabeça humano, você é formado pelo encontro de cada um dos seus ancestrais.