Sou colocada diante de uma mulher, minha mãe. A instrução é que eu encontre o amor que me falta dentro dela, se eu não conseguir, devo puxar o fio vermelho colocado em minhas mãos. Fácil, afinal, ela é minha mãe. Porém, atrás dela um filme começa a rodar. Fatos e escolhas de sua vida pessoal que eu não esperava e nunca imaginei, são apresentados. Também pudera, a trajetória dela não começou quando eu nasci. O filme termina e eu estou em choque, distanciada, fracassei.
Ela é substituída pela minha avó. A instrução é a mesma, encontrar o amor que me falta dentro dela. Vai ser mais fácil, concluo. Quando eu nasci, ela já era uma velha senhora. Porém, uma história ainda mais desconhecida e estranha se desenrola na tela, eu termino pior do que antes, sem a mínima condição de encontrar conexão com algo tão longe de ser familiar. Para falar a verdade, me sinto traída, ela não se comportou em sua vida com acho que deveria.
Minha avó é retirada, a bisa é colocada. A busca pelo amor se torna algo cada vez mais impossível, a cada substituição que se segue, me identifico menos com pensamentos, escolhas e decisões dessas minhas ancestrais. Como elas puderam aceitar tantas coisas que eu jamais aceitaria? Estou a ponto de desistir. De repente, ouço uma música que me lembra a infância e na tela vejo a minha própria história aparecer, sinto alívio, algo familiar. Mas a imagem falha, a vida, por falta de amor se desocupa de mim e eu, não consigo mais respirar.
Desesperada, penso nas mulheres que vi e insistentemente procuro nelas a mim mesma para encontrar amor. Dá maneira que tento, não funciona. Quase sem vida, puxo o fio. Na tela, surge o oceano, lugar onde a vida começou, e o ar que retorna para dentro de mim, traz a sabedoria que abandonei:
- O amor que te falta não vem pelo julgamento que você faz daquelas que vieram antes de você, mas no reconhecimento de que foi através delas que o fio da vida se esticou para te dar a possibilidade de existir. É preciso cuidar delas com o coração, pois tempos passados trazem dificuldades que você não pode imaginar.
Esquecê-las é destruir a si mesma, desrespeitá-las é fazer a vida, que te atravessa, se interromper.
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